O romanceiro ibérico no Brasil

Indiscutivelmente se encontra, na cultura popular brasileira, muita influencia ibérica, seja na música, na literatura erudita ou de cordel, nas tradições cristãs e festivas e no folclore. Entretanto, vale ressalvar que em muitas vezes o termo Romanceiro é atribuído a obras e temáticas que não são aquelas diretamente ligadas ao romanceiro ibérico tradicional, objeto do qual este arquivo se ocupará exclusivamente.

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Os estudos do património imaterial estão diretamente ligados a dinâmicas de cidadania ativa, educação e valorização das diferentes expressões culturais, entre as quais entendemos, naturalmente, o romanceiro ibérico, que é vestígio ativo da ainda fértil intermediação cultural ibérico-brasileira.

Na Península Ibérica, o interesse pelo romanceiro oral tradicional nasce por volta de 1824, pela mão do intelectual romântico português Almeida Garrett (1799-1854), inspirado pelo movimento europeu de revitalização da poesia medieval associada à ideia herderiana de povo e de cultura fundacional. Segue-se o desabrochar de um movimento de recolhas e difusão deste género de origens medievais que se expande a todas as nações ibéricas, sobretudo a partir do segundo quartel do século XIX.

Não demorou a que os estudos e edições do Romanceiro atravessassem o Atlântico e aportassem no Brasil. De facto, os primeiros vestígios deste movimento são bastante precoces. O investigador Manuel da Costa Fontes apresenta o registro de um manuscrito intitulado “Romanceiro Tradicional do Brasil”, atribuído a Inácio Raposo ainda em 1853. Como o manuscrito de Inácio Raposo permaneceu inédito, é a Celso de Magalhães que cabe a honra de iniciar o estudo do romanceiro no Brasil, ao editar os primeiros romances daquele país em 1873.

A obra de Celso Magalhães apresenta uma série de artigos que continham inúmeros romances de tradição oral, transcritos sob o título A Poesia Popular Brasileira, recolhidos entre os estados de Pernambuco, Bahia e Maranhão. E será seguida por uma quantidade considerável de recolhas e publicações em todo o território nacional, o que contribui, ao mesmo tempo, para a constatação de uma sensível predominância nos estados que compõem a região nordeste, que é tradicionalmente rica em tradições folclóricas e manifestações da cultura popular em geral.

Sílvio Romero e, posteriormente, Câmara Cascudo, também recolheram romances, com o intuito de “tentar salvar, o mais cedo possível, as melodias dos romances e xácaras tradicionais, ainda hoje tão parcamente registradas”. Vale destacar a campanha de Silvio Romero, que, destoando dos demais pesquisadores, utilizou-se dos estudos e transcrições, menos para fins de investigação do folclore, mas para afirmar a identidade da cultura popular brasileira independente da portuguesa. Segundo ele “é evidente a origem portuguesa de alguns e a transformação mestiça de outros” .

Há registros de recolhas realizadas nas cinco macrorregiões do Brasil, cada uma com sua peculiaridade, contribuindo com diversas versões de um mesmo romance. Entretanto, é notável que em uma delas, na região Nordeste, se verifique uma predominância tanto no que diz respeito à permanência e divulgação do romanceiro no âmbito popular, quanto no que corresponde à investigação e estudos na esfera acadêmica.

Fatores de formação social contribuíram para isso: a organização da sociedade patriarcal; o surgimento de manifestações messiânicas; o aparecimento de bandos de cangaceiros ou bandidos; as secas periódicas provocando desequilíbrios econômicos e sociais; as lutas de famílias que deram oportunidade, entre outros fatores, para que se verificasse o surgimento de grupos de cantadores como instrumento do pensamento coletivo, das manifestações da memória popular.

Constata-se que o termo romance é raras vezes mencionado pelos informantes barasileiros, sendo mais comuns termos como Xácaras, Cantigas ou até “estória de trancoso cantada ou simplesmente estória cantada” ou até “modinha ou toada, brinquedo de criança, acalanto, moda de viola, e mesmo como parte integrante de folguedos, como o Fandango (“Nau Catarineta”, “Xácara do Cego”) e o Bumba-meu-boi”. Porém, a etimologia do termo, como se sabe, poderá trazer, segundo se propõe, considerações interessantes para relacionarmos o conceito de romance com a dispersão geográfica do próprio género, tanto na Europa, como em terras brasileiras.

Com efeito, o termo romance está presente há muitos séculos na cultura ocidental. Supostamente, ele surgiu em oposição a latino, do latim. O que não fosse latim era romance (rimance), portanto, pertencia à população iletrada e até hoje essa relação “romances e analfabetos” é feita, visto que, os romances costumam serem encontrados em comunidades menos favorecidas da sociedade. De acordo com Antônio Lopes, Celso Magalhães ao constatar a presença de romance no Nordeste brasileiro disse que essa “tradição foi esquecida pelas chamadas classes cultas, refugiando-se no meio do povo” .

É esse imenso património que se encontra disperso em publicações de difícil acesso que este arquivo propõe, num primeiro momento, resgatar.

 

 

[1]FERRÉ, Pere. Romanceiro Português da Tradição Oral Moderna. p. 67.

[2]COSTA FONTES, Manuel. “Romanceiro Brasileiro. Pequeno Catálogo”.

 

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